– Henry.

Era meio dia quando ví seus pés.

Estavam descalços e sujos.

Depois, o ví inteiro, um rosto magro, um corpo frágil.

Vestia roupas, muitas delas, uma bermuda caindo pelos joelhos em cima de uma calça velha de tectel e por cima uma regata e outra camiseta meio rasgada.

Nas mãos apenas uma garrafa pet de 2 litros, cheia até quase a metade de lança-perfume. Como disse, era apenas meio dia.

Eu disse lança? Não, desculpe, troquei os elementos.

Aquele cheiro era inconfundível, tiner, solvente de tinta. Custa em média 5 reais o litro. Cresci sentindo aquele cheiro removendo cola de adesivo e limpando a tinta que ficava nas ferramentas de trabalho do meu pai. Lembrei-me dele dizendo:

– Filha, vai lá pra fora, não faz bem ficar respirando esse cheiro. Eu já termino isso aqui e vou lá com você.

Mas, essa figura languida que tinha em minha frente, inalava. Inalava afoitamente, e ao ver um vestigio de sua salvação (ou perdição) se perdendo sem utilidade no ar entrou num desespero de fechar todas as janelas do onibus. Os outros passageiros já estavam todos alarmados. Eu pronta para descer no próximo ponto, estava chegando ao meu destino.

Pela primeira vez estava alí, inteira, sem criar nenhum julgamento, apenas observando, vivendo aquele momento.

Então senti aquele cheiro impregnado nos meus cabelos, na minha pele, uma nuvem de solvente envolvia o ônibus. As outras pessoas tampavam o nariz. A cobradora, pediu pra motorista parar, alí mesmo, no meio da avenida. E ordenou, um tanto rispida para que o sujeito descesse.

Ele meio desnorteado, provavelmente pelo torpor de inalar tiner desde cedo e de estomago vazio, desceu. Desceu, mas não sabia porque estava descendo. Da mesma forma que vive, sem saber porque está vivendo.

E aquilo me doeu, me doeu como se fosse eu que tivesse sido enxotada.

Me doeu, por ver um alma perdida. Perdida em um corpo, que se esqueceu que tem uma.

Me doeu e me dói, por saber que agora, neste exato momento inúmeras crianças começam a trilhar o mesmo fim. Me dói não ter forças suficientes pra fazer algo por essa gente.

Me dói por ver um onibus cheio de ódio de uma pessoa entregue.  Sem forças, sem perpectivas, sem chances. Contaminado. Será que alguém parou pra se perguntar o que o teria levado até lá? Será que alguém permitiu culpar-se? Será que alguém ao menos sentiu vontade de fazer algo pra mudar essa ou tantas outras histórias parecidas?

Provavelmente não!

O mundo está realmente tão banal e louco? Ou fui eu quem enlouqueceu?

Pode ter sido Bukowski que me deixou sensível aos marginalizados. Ou, minha mente apenas se abriu ao mundo real, como a dele.

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