.: Aquela caixa

Fui jogada assim do nada naquela caixa de coisas velhas.

Lá no fundo alguns panos puídos.

Por cima disso, tralhas de todos os tipos. De utensílios domésticos à sentimentos nem sentidos.

Encontrei também dois olhos, que um dia me disseram muitas coisas.

Hoje já não se movem, parecem vidro.

Um vidro que não se racha e não tem vida.

Não é a personificação das coisas.

Se trata da coisificação das pessoas.

Estou esquecida em uma caixa, junto com tantas outras coisas importantes esquecidas.

Mas, longe de ser triste é melhor que estar fora.

Pois do lado de cá, tudo é essência, verdade, sem enfeites, tudo se basta.

Do lado de lá, tudo é vazio. Só existem as coisas esperando pra serem descartadas.

Então às vezes, em tardes de domingos, ou de terças, ou até quintas me aventuro pela cidade e me deparo com novos personagens.

Lá vai o homem-coisa, que passa pela coisa-maquina, que bate no poste-coisa.

Atropelando a loira-plástica. Que chora sangue-tóxico.

E o povo-coisa-massa, se reúne pra ver a cena trágica, numa tarde-coisa cinza.

Na cidade-coisa triste, de pessoas-coisas solitárias que mesmo quando reunidas pra ver o coisa-circo pegar fogo.

Voltam pra casa sem coisa alguma pra contar.

Ando preferindo ser esquecida, a me tornar uma coisa pra contar.

Ando preferindo ser esquecida, a ser uma coisa pra guardar.

Ando preferindo ser esquecida, a ser uma coisa pra evocar.

Pode me deixar quieta no meu canto que eu sei me virar.

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