.:Sobre o grande ato contra o aumento da passagem

Deixando minha opinião um pouco de lado e sem entrar nos méritos do que é certo ou errado queria falar sobre minha experiência no protesto de hoje e levantar algumas questões.

Cheguei, um pouco atrasada, confesso, e a passeata já havia saído da frente do teatro municipal. Tinha uma quantidade de pessoas maior do que eu esperava, o que me deu uma real esperança de que o ativismo de sofá está ao poucos, indo pra rua. Não que duas mil presentes de mais de vinte mil confirmados, seja algo glorioso, mas em tempos de facebook já é uma vitória.

Seguimos normalmente como todo protesto, cantando, gritando e pedindo a redução da passagem. Um grupo pichava paredes e colavam na tinta ainda fresca os panfletos da próxima passeata.

Quando chegamos ao Vale do Anhangabaú, até então apenas com a polícia seguindo a passeata (o que venhamos e convenhamos dá pra entender, se fosse um show que reunisse um numero grande de pessoas também teria), manifestantes começaram a soltar rojões e fogos de artifício, mais tarde fiquei sabendo que um desses rojões teria sido lançado contra um carro da polícia (fato que não presenciei, pois estava preocupada o suficiente com não ser atingida por um desses sinalizadores). O resultado disso eu notei; algumas pessoas indo embora, outras fazendo outro caminho e a passeata se desorganizando. Segui, claro que não demorou pra chegar a tropa de choque e helicópteros, fechamos as principais avenidas do eixo centro-paulista, não eram raras as explosões, sabe deus se dos rojões, ou das bombas de gás, provavelmente dos dois.

O clima começou a ficar tenso, os manifestantes foram se afastando, uma boa parte foi embora antes de subir o viaduto. Um amigo que estava comigo, e eu decidimos ir por baixo e não arriscar passar por um momento de tensão num viaduto onde não tem muita escapatória em caso de tumulto, ou um possível ataque da polícia.

Naquele momento, pra mim a passeata já havia perdido o rumo, mas como estava lá, queria seguir até o final. Cheguei no Vao do Masp antes do grupo.

Todos já bloqueavam a Av. Paulista, a policia vinha mais atrás, acompanhando, quando de repente as pessoas que estavam perto de mim começaram a jogar rojões nos policiais.  Saímos de lá e atravessamos a rua, é claro, que depois de uma chuva de fogos de artificio na cabeça, a policia veio pra cima.

Hora de ir embora, entramos no metro e tudo o que sei depois vi pela televisão.

Claro que no caminho entre o Masp e o metro vi um pessoal arrombando porta de banco, quebrando ônibus, vidro de loja, enfim.

Esse texto não é pra dar lição de moral, nem pra defender nem atacar policial, e idem com quem acha que o vandalismo e o ‘quebrar a porra toda’ vão solucionar o problema. Mas pra parar e pensar em algumas coisas.

1- Não é de hoje que a mídia gosta de fazer sensacionalismo, deturpar e diminuir a importância dos protestos na sua forma de noticiar. Mas quando sujamos a cidade, quebramos agencias bancárias, vidros de lojas etc, não estamos dando material justamente pra essa mídia ter sua matéria, do jeito que queria e de mão beijada?

2- Se você acha que o problema do mundo é a mídia, a burguesia e os partidos políticos. Reveja seus conceitos e aprenda de verdade o significado das palavras.

A mídia tem seu grau de responsabilidade, mas são empresas, que visam o lucro (sistema capitalista, no qual estamos inseridos e não sejamos ingênuos, não iremos sair tão rápido, principalmente se não entendermos o que de fato é liberdade e respeito), se tem notícia, vai dar ibope, e ainda de quebra ganhar umas vantagens agradando o governo, porque não?

Burguesia, só pra constar, é por definição:

(bur.gue.si.a)sf.1. Soc. Classe social ligada às atividades urbanas, formada por profissionais liberais e proprietários de negócios de comércio, indústria e finanças; classe média.

Então meus queridos, sinto informar, mais de 50% da população brasileira (classe média) se tornou burguesa nos últimos anos e isso provavelmente inclui mais da metade dos manifestantes presentes hoje.

Ser burguês, não é ser rico. Quem é rico de verdade, não tem uma lojinha no centro de São Paulo ou uma banca na Av. Paulista. Quem é rico são sócios de MULTINACIONAIS, são banqueiros, empresários que cuidam da exploração de nossos recursos naturais, políticos.

Então não achem que quebrar a janela de uma loja vai atingir quem realmente deve ser atingido. Quem tem dinheiro não tá nem ai, quem trabalha na loja vai ter um trabalho a mais, limpar a bagunça. O comerciante um prejuízo financeiro (como se não fosse suficiente a quantidade de impostos do nosso governo)  e o governo vai ter que acionar a policia (e aproveitar pra justificar um gasto a mais, pois manifestações como essa não estavam programadas nos gastos) enquanto a mídia faz a festa e divulga o que bem entender.

Temos que acabar com esse ativismo burro, o ativismo não precisa ser feito de ideologias (ideias que as pessoas simplesmente adotaram mas nunca questionaram), mas sim, de pessoas que estão lutando pelos seus direitos, pelo coletivo e tem idéias próprias.

A questão da diminuição da passagem e de uma melhor estrutura de transporte público não atinge só quem pega ônibus/metro todo dia. Atinge também o cara que tem carro e acha que não tem nada a ver com a coisa, mas paga vale transporte pra empregada doméstica e vai ter que pagar mais. Ou o cara que detesta ser mal atendido mas esquece que essa pessoa está recebendo pouco, gastando muito com um transporte insuficiente e de má qualidade.

E é isso que  temos que mostrar, não é ser contra a burguesia. É fazer a classe média enxergar que ela é diretamente atingida por TODOS os problemas sociais. Quando a classe média burguesa, entender que ter um carro do ano e um cartão de crédito pra comprar um Iphone não as tornam imunes aos problemas, que eles tão ali, e vão atingí-los de uma forma ou de outra. Ai sim, quem sabe, poderemos sonhar com mudanças reais. E infelizmente não vai ser quebrando suas lojas, batendo em seus carros e pichando as paredes dos seus prédios que vamos conseguir que parem pra entender o que estamos dizendo.

Ah! Mais uma coisa. Partidos políticos no Brasil são como cupcakes, todos parecem belos e muitos diferentes uns dos outros, mas no fim todos tem o mesmo gosto e nos decepcionam.

Então parem com textinho decorado, aproveitem quem vocês já são diferentes da maioria, se não ainda estariam atrás do computador só reclamando e criem suas próprias opiniões, parem de repetir igual papagaios que a culpa é do PT, a culpa é do PSDB, a culpa é do PSOL, da  mídia, da burguesia ou do raio que o parta. Parem de depositar uma responsabilidade que é de TODOS em um grupo ou partido.

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